Passos Caórdicos

 

Como criar um sistema caórdico? Este ciclo de oito passos é um guia para navegar no estreito caminho entre o caos e a ordem para a criação de organizações inovadoras.

Passos Caórdicos

 

Cada um dos passos deste ciclo é realizado em um ou mais encontros, envolvendo o maior número possível de stakeholders do projeto, de forma participativa e colaborativa. O tempo para realizar um ciclo completo pode variar muito, desde alguns dias, para um pequeno projeto, até mais de um ano, para a criação de uma nova organização caórdica. Segue uma breve descrição de cada passo.

  • Necessidade (pergunta significativa coletiva): Toda ação efetiva deve partir de uma necessidade efetiva. Que necessidade real buscamos satisfazer? Importante aqui é que a necessidade seja identificada de forma coletiva, para evitar que objetivos pessoais sejam impostos a um grupo. Onde está a intersecção entre a minha necessidade e a necessidade do mundo?
  • Propósito (objetivo digno): Para atender à necessidade o primeiro passo é definir o propósito da comunidade com clareza e profunda convicção. Esta afirmação, de fácil compreensão comum, identifica e interliga os membros da comunidade como um objetivo digno de ser perseguido. Comumente pode ser expresso em uma frase. A pergunta que inspira é: “Se alcançarmos esse propósito, nossa vida terá significado?“.
  • Princípios (de cooperação): O conjunto de princípios, com as mesmas características do propósito (clareza, convicção, compreensível), guiam os envolvidos na busca pelo propósito. O seu conteúdo ético e moral requer um envolvimento dos indivíduos íntegros, não apenas do intelecto. Dê preferência ao descritivo ao invés do prescritivo e procure princípios que se iluminem mutuamente. Visto como um todo, o propósito e os princípios formam o corpo de crenças que unirá a comunidade e guiará decisões e ações.
  • Pessoas (stakeholders, comunidade, companheiros – confiança mútua): Com clareza de propósito e princípios, identificamos todos os envolvidos e afetados, os participantes cujas necessidades, interesses e perspectivas devem ser levados em conta ao conceber (ou reconceber) a organização. Esta é a oportunidade de assegurar que todos os indivíduos e grupos interessados foram considerados e envolvidos quando o novo conceito organizacional é perseguido.
  • Conceito (organizacional): Após identificar todos os envolvidos, buscamos e definimos de forma criativa e desinibida um conceito geral da organização. À luz do propósito e dos princípios, buscamos estruturas organizacionais inovadoras nas quais possamos confiar como justas, equitativas e efetivas. Além disso, busca-se respeito a todos os participantes, em relação a todas as práticas com as quais podem se envolver. Freqüentemente descobrimos que nenhuma forma de organização existente atende a isso e algo novo tem que ser concebido. Um dos maiores desafios aqui costuma ser a combinação sábia dos diferentes padrões organizacionais (círculo, hierarquia, burocracia, rede).
  • Crenças (limitadoras): Ao criarmos um conceito organizacional inovador, normalmente esbarramos em crenças limitadoras. Quais são estas crenças? Isto é impossível, as leis não permitem, ninguém fez antes, isso não funciona… Listar e identificar claramente esses limites nos ajuda a encontrar formas de transcendê-los, ou nos mostra que é necessário redesenhar o conceito de organização.
  • Estrutura (estatutos, contratos, escritórios): Assim que o conceito organizacional estiver claro e tivermos lidado com as crenças limitadoras, os detalhes da estrutura organizacional são expressos. Esta constituição formal deve incorporar com precisão a substância dos passos anteriores. Ela irá incorporar o propósito, os princípios e o conceito, especificar os direitos, obrigações e relação de todas as pessoas envolvidas, e eventualmente (se necessário) estabelecer a organização como uma entidade legal (ou um conjunto de entidades), através de estatutos e regimentos ou documentos similares.
  • Práticas (ação, produtos, serviços): Com clareza de propósito e princípios compartilhados, os participantes certos, um conceito efetivo e um clara estrutura, práticas e ações irão se desenvolver naturalmente de forma focada e efetiva. Elas irão combinar de forma harmoniosa a cooperação e a competição em uma organização transcendente em que todos confiam. O propósito é então realizado muito além das expectativas originais, em um sistema auto-organizado e auto-governado, capaz de aprender e evoluir continuamente.

Este processo é um ciclo contínuo e não linear. Por exemplo, ao realizar a nossa prática, percebemos uma nova necessidade, ou a falta de um princípio. Revisitamos cada um dos passos quando for preciso, reinventando a organização constantemente, e esta se torna um sistema vivo. Assim, mais do que uma seqüência de atividades, o modelo e os passos caórdicos se tornam um conjunto de valores e um sistema operacional.

Referências:
Dee Hock, The Birth of Chaordic Age (livro)
Chaordic Commons (http://www.chaordic.org/)